Relações Governamentais: “ou você está à mesa, ou está no cardápio”
Por colaboração e autoria de Edgard Usuy, sócio-administrador da empresa de consultoria Integra Inteligência Política, membro da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais, da Associação Catarinense de Relações Institucionais e Governamentais e do Instituto de Relações Governamentais

Imagine que você é um empresário e que o negócio para o qual você dedicou toda a sua vida será impactado mortalmente por uma norma que está em discussão em uma comissão mista temporária do Congresso Nacional que não reflete nem de longe a realidade do seu setor.
Agora imagine que você é um líder ativista e que a causa que você defende desde sua juventude finalmente poderá ser contemplada por uma política pública que está sendo desenhada em algum setor de alguma agência reguladora em Brasília.
Ou, ainda, que você é um líder da sua igreja, da sua tribo ou do seu movimento social e foi incumbido de levar um pleito dos que você representa aos membros de um comitê que é parte de algum ministério.
E mais além, imagine que você está na sua vida cotidiana e uma secretaria de estado, um deputado estadual, uma frente parlamentar, um prefeito ou um vereador estão neste momento decidindo algo que vai modificar seu dia a dia e você não faz a mínima ideia de que isso está acontecendo.
Agora, por fim, imagine que a sua frente você tem 1 presidente, 22 ministérios, 11 agências reguladoras, 513 deputados federais distribuídos em 25 comissões e 50 frentes parlamentares, 81 senadores organizados em 20 comissões e 8 frentes parlamentares, 27 governadores, aproximadamente 670 secretarias de estado, 1.059 deputados estaduais, 5.570 prefeitos, quase 96 mil secretarias municipais e 57.931 vereadores e eles estão rodeados por 11,5 mi servidores públicos. Para completar, compute quase 200 mil leis em vigência e 33 partidos políticos com suas relações peculiares.
Para completar o cenário, você disputa a atenção deles com 240 mil ONGs e mais de 19 milhões de empresas.
Seja bem-vindo ao Brasil.
Pelos idos dos anos 50, a atividade de relações públicas se consolidou, surgia a ferramenta de comunicação de um indivíduo ou organização com o seu público. Por volta dos anos 90, potencializada pela globalização , emerge a figura de relações internacionais, que passou a estudar e estruturar a comunicação entre os países. Mas, quem falaria com o governo pela sociedade?
Devido à complexidade estrutural e ao número elevadíssimo de temas que são abordados pelo Poder Público, somados à necessidade de tecnicidade, legalidade e transparência, surge a figura do especialista em comunicar com o governo: o Relações Governamentais, que sinteticamente passou a ser chamado de RELGOV.
A atividade de Relações Governamentais se utiliza de instrumentos técnicos e legais para fazer chegar àqueles que tomam as decisões as informações que auxiliarão na legitimidade das políticas públicas e das normas elaboradas por eles.
O RELGOV é quem auxilia na localização do problema ou oportunidade, na verificação da legalidade do pleito, na identificação do agente público que deve ser conectado, na elaboração e execução da estratégia de comunicação, no monitoramento da efetividade e na reavaliação da ação. E o bom RELGOV é aquele que faz tudo isso e adiciona ética, responsabilidade social, transparência e espírito republicano.
Como é possível perceber, a tarefa não é simples e, inegavelmente, hoje é necessário muito mais do que relacionamento.
É imprescindível o domínio de algumas áreas do conhecimento e ter habilidades com várias ferramentas, como por exemplo: comunicação corporativa e interpessoal, gestão de crise, processo decisório, negociação, lobby, advocacy, análise de risco e de cenários, mapeamento de stakeholders, estratégia, processo e técnica legislativa, orçamento público, oratória e retórica, ciência política, ciclo de políticas públicas, direito constitucional, internacional, regulatório, tributário e administrativo.
Portanto, foi-se o tempo em que a defesa e representação nos processos de construção de política pública poderiam ser feitas com base apenas na exploração de conexões profissionais.
Há uma real necessidade de profissionalização para garantir a lisura e, especialmente, buscar resultados mais efetivos.
Enfim, a atuação de interlocutor entre entidades privadas e Poder Público não é tarefa comum em nenhum lugar do mundo, e muito menos é no Brasil, que, como teria dito o poeta Tom Jobim, “não é para principiantes”, podendo-se concluir que os setores que não tiverem à sua disposição um profissional ou consultoria técnica específica para o acompanhamento da evolução de pautas normativas não irá prosperar no mundo moderno.
